segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

No estado actual do nosso conhecimento...

http://news.bbc.co.uk/2/hi/science/nature/7081331.stm

Este é o resumo de um artigo de John Christy, Professor de Ciências Atmosféricas na Universidade do Alabama, e publicado em novembro de 2007. Trata-se de um texto que, apesar de estar escrito na voz do Prof Christy, passou pelo filtro da minha interpretação e resumo. Estão convidados a ler o original.

Enquanto muitos dos participantes nos relatórios do IPCC são objectivos, há dois pontos a notar: a elaboração dos relatórios é um processo que até certo ponto é político, e o sistema do clima é muito complexo, de tal forma que nem podemos prever bem o tempo para daqui a cinco dias.

O processo político começa com a selecção dos autores principais pelo seu governo, mas pode ir mais longe.

Num encontro do IPCC, sentei-me para almoçar à mesa de três autores principais europeus. A conversa deles ao almoço resumia-se a “Temos de escrever o relatório de uma forma suficientemente forte para convencer os EEUU a assinar o protocolo de Quioto”. A política, pelo menos para alguns autores, faz parte do processo.

Os cientistas também sofrem da tendência humana em cair em pensamento de rebanho, ou pensamento colectivo. Não querem ficar de fora do grupo. Na minha opinião, isto conduz a uma afirmação excessiva da confiança nos resultados publicados e a uma aceitação dos pontos de vista das autoridades ungidas. O cepticismo, a verdadeira marca do espírito científico, torna-se reprovável.

A afirmação final do AR4 do IPCC (2007) pode ser resumida em: “Temos 90% de confiança que a maior parte do aquecimento dos últimos 50 anos é devida à humanidade.” Não nos dizem que isto resulta de um modelo de computador e não de dados de observação. Na verdade, não temos termómetros que distingam entre o aquecimento antropogénico e o de outras causas. Eu teria escrito esta conclusão desta maneira: “Os nossos modelos do clima são incapazes de reproduzir os últimos 50 anos de temperaturas de superfície sem que lhes demos um jeitinho na base da forma como nós achamos que os gases de estufa afectam o clima. Grande parte destas alterações podem ter sido causadas por outros factores.”

A elevação dos modelos climáticos ao status de ferramenta infalível para fazer previsões leva à tentação do excesso de confiança.

São a ferramenta básica para estimarmos o clima futuro. Vendo como os valores produzidos pelos modelos se adequam, nos gráficos, aos observados, pessoas que não sabem muito de modelos climáticos são persuadidas que estes modelos são bastante precisos.

Mas esta opinião tem uma falha fundamental: cada modelador sabia a resposta antes. Além disso, isto não é experimentação nenhuma: pode ser conseguido apenas com boa engenharia de software e não necessariamente com recurso a princípios científicos.

O nosso grupo estava envolvido na preparação de conjuntos de dados. Nesta situação, devemos desconfiar de argumentos de autoridade quando não coincidem com os dados observados, por mais imperfeitos que estes sejam.

Nas comparações de modelos contra dados reais encontramos inconsistências grosseiras, pelo que estou muito duvidoso da nossa capacidade para falar dos estados climáticos futuros com conhecimento de causa e efeito.

Achar que é possível tentar reproduzir em computador os milhões de processos naturais é de um orgulho desmedido. Fazer previsões do clima em função dos aumentos dos gases de estufa ainda tem uma enorme incerteza.

Como podemos melhorar esta situação? Uma forma semelhante à adoptada pelo IPCC é a melhor que é possível.

Os autores com pontos de vista alternativos devem poder receber o mesmo protocolo que os do IPCC, ou seja, serem os seus próprios revisores finais e decidirem o que, deles, é e não é publicado. Essas decisões seriam publicadas num forum quase-oficial. Nesse ponto, penso que a blogosfera entraria em erupção, conduzindo a uma clarificação.

Continuo a trabalhar com o IPCC até que algum funcionário me dê uma bola preta: não só posso contribuir com a minha investigação, como tenho muitas oportunidades para aprender coisas novas; e consigo sobreviver aos desentendimentos sobre nuances e afirmações subjectivas.

Entendam-me: na minha opinião, o CO2 atmosférico continua a aumentar devido aos benefícios indiscutíveis da energia com base no carbono. Esse aumento terá algum impacto directo no clima.

No entanto, a investigação nesta área é pouca, e a minha investigação indica que nada de dramático se está a passar.

O melhor que posso dizer é repetir o que o meu professor de física do liceu me disse: que, sempre que fizéssemos uma afirmação no domínio da ciência, devíamos começar com “No nosso actual nível de ignorância, achamos que sabemos que...

Um bom conselho para todos nós e para o IPCC.

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