domingo, 7 de fevereiro de 2010

O barrete do consenso: a carta que a Science se recusou a publicar




Em 2004, poucos dias antes de um importante encontro do UNFCCC, a Science publicou um artigo de Naomi Oreskes dizendo que, de entre uma pesquisa de quase um milhar de artigos, nenhum discordava da conjectura do aquecimento global antropogénico catastrófico.

Esta carta de Benny Peiser aborda essa comunicação de Oreskes em 2004.
Naomi Oreskes fez um estudo em que mostrou que havia unanimidade sobre as causas antropogénicas do aquecimento global, e não existia nenhum artigo científico em contrário:

Of all the papers, 75% fell into the first three categories, either explicitly or implicitly accepting the consensus view; 25% dealt with methods or paleoclimate, taking no position on current anthropogenic climate change. Remarkably, none of the papers disagreed with the consensus position.

Este estudo foi publicado na Science (N. Oreskes, 2004, The scientific consensus on climate change. Science, Vol 306, Issue 5702, 1686, 3 December 2004) e tem sido a base do chavão do “consenso”.
Para isso, Oreskes fez uma pesquisa de artigos na base de dados ISI com as palavras “climate change”. Obteve 928 resumos e nenhum destes mencionava um único ponto de vista contra a causa antropogénica do aquecimento global.
Houve quem achasse isso estranho, por saber que não era possível por causa do Óptimo do Holoceno e do Óptimo Medieval, com baixas concentrações de CO2 (cada vez me convenço mais que os piores inimigos do aquecimento global são os geólogos). Uma pesquisa repetida com as condições indicadas por Oreskes originava mais de 12.000 artigos, não 928.
Ainda em 2004, ela admitiu que se tinha enganado, e que tinha pesquisado “global climate change” e não “climate change”.
Nessas condições obtêm-se 1247 artigos. Como tudo isto era suspeito, Benny Peiser decidiu ir ver melhor e tentar duplicar o que ela fez.
Dos 1247 documentos, apenas 1117 tinham resumos. Foram distribuídos pelas mesmas categorias que Oreskes usou (ver Oreskes).
Desses, apenas 1% (13) abonam explicitamente a posição dita do “consenso”, e 29% assumem-no implicitamente. Podemos dizer que 30% o aceitam.
Trinta e quatro (3%) duvidam ou rejeitam o Aquecimento Global Antropogénico Catastrófico. Outros 47% têm as palavras chave “global climate change” mas nenhuma referência, directa ou indirecta, às suas noções (!).
Segundo Oreskes, 75% dos artigos caiam nas três primeiras categorias; Peiser encontrou apenas 38%.
Segundo Oreskes, não havia vozes em contrário; Peiser encontrou 34 artigos explicitamente em contrário.
Isto é suficiente para dizer que Oreskes se enganou. Peiser escreve à Science uma carta para publicação, com estes elementos (4 Jan 2005).
A 18 de Fevereiro a Science responde que deve cingir-se a 500 palavras.
A 23 de Fevereiro, Peiser envia a versão encurtada.
A 13 de Abril, a Science recusa a publicação, porque “o assunto já foi muito falado na Internet”.
No dia seguinte, Peiser pergunta-lhes como é que isso é possível, se ele nunca falou do assunto com ninguém.
A correspondência termina aí. Ficou o “consenso” determinado pelos editores da Science.

Para quem não percebe nada de ciência, só duas coisas: em ciência, o consenso não tem valor, nem sequer existe -- a ciência faz-se com provas, e não com votações de braço no ar; tal como nunca há ciência estabelecida -- nenhum fragmento de conhecimento está livre de ser contestado.
Essas noções poderão existir em política, ciências sociais, finança e activismo, mas não têm valor em ciência.

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