quarta-feira, 5 de maio de 2010

Mortes pelo frio: resumos de 20 artigos

(Longo)

Ainda que seja do conhecimento popular que as pessoas, em especial de idade, tendem a morrer durante o tempo frio, há a necessidade de demonstrá-lo com mais que sabedoria popular.
Já começámos com alguns posts: aqui, aqui, aqui e mais alguns (procurar frio, mortalidade).
Aqui vamos “resumir um resumo” do CO2 Science sobre a mortalidade cardiovascular pelo frio. Não se trata, portanto, de um artigo meu.
Todas as afirmações têm um link que conduz ao resumo do artigo, com a respectiva referência formal.
Tenho a certeza de poder fazer mais, se o meu VPN funcionasse e me desse acesso a revistas científicas; mas não é o caso, e não tenho dinheiro para assinaturas, ao preço a que são. Se tiverem, força.
Em breve um resumo das afirmações feitas aqui. Agradeço ao Ecotretas por ter feito um post que me chamou a atenção para o assunto.
N.B. - ocasionalmente, por ter dúvidas, traduzi “stroke”, que regra geral significa acidente cerebrovascular, como trombose. Essa tradução resulta de dificuldades de contexto. Se lerem o que se encontra nos link sem dúvida que essa distinção se torna mais clara.

1. O estudo de Feigin 2000, foi feito na Sibéria, em Novosibirsk. A população estudada foi de 2208 doentes com distribuição de sexo e idade semelhante à da população russa, e com uma data definida para o primeiro episódio isquémico (EI), de 1982 a 1993.
Encontrou-se uma associação significativa (p <= 0,02) entre a baixa temperatura ambiente (< 2 ºC)e a incidência de acidentes cardíacos isquémicos. De todos os acontecimentos, os isquémicos foram 87%. Nos dias frios, a incidência de EIs é 32% mais elevada.
Concluem da necessidade de evitar temperaturas baixas.

2. No estudo de Hong 2000, feito na Coreia, investigou-se a associação entre EIs e descidas de temperatura em 545 doentes que sofreram EIs entre 1998 e 2000.
Encontrou-se que as descidas na temperatura ambiente se associam a um maior risco de EI, o maior efeito sendo observado no dia seguinte à exposição; e que mesmo uma descida moderada da temperatura aumenta o risco de EI. Os riscos estimados para as doenças causadas pelas descidas de temperatura são maiores no inverno que no verão o que lhes sugere que não são apenas as descidas de temperatura mas também as temperaturas baixas que estão associadas aos Eis.
Sugerem que o tempo de 24 a 48 horas de diferença entre a exposição e o EI se deve a um mecanismo sugerido por Keatinge e outros (1984), que encontrou que a viscosidade sanguínea e a contagem de plaquetas (o que aumenta a coagulação) começam a aumentar uma hora depois da exposição ao frio e atingem o seu máximo só após seis horas depois da exposição.

3. Segundo Nafstad (2001), foi feito na Noruega, em Oslo, entre 1990 e 1995, e estudou a associação entre a temperatura e a mortalidade diária. Os grupos foram doenças respiratórias, doenças cardiovasculares e doenças restantes (o que, claro, exclui morte violenta).
Em todas as três categorias, a mortalidade é maior de Outubro a Março que de Abril a Setembro. Para as doenças respiratórias as mortes de inverno são 47% mais. Para as duas outras categorias (cardiovasculares e restantes) a mortalidade de inverno é 15% superior.
Os autores sugerem que um clima mais suave conduziria a uma substancial redução da mortalidade média diária.

4. No estudo de Hajat (2002), em Londres, procurou-se uma relação entre o frio e o número de consultas a clínicos gerais feitas por idosos e devidas a queixas respiratórias e cardiovasculares.
O número de consultas foi maior de outubro a a março do que de abril a setembro, para todas as queixas cardiovasculares e respiratórias.
Além disso, sempre que a temperatura descia abaixo de 5 ºC, havia uma relação linear com o número de consultas que ocorriam 6 a 15 dias depois, de tal forma que a uma descida de 1 ºC abaixo dos 5 ºC correspondia um aumento de 10,5 % de consultas por queixas respiratórias.

5. O de (Behar 2000) é feito num clima mais quente, Israel. Os autores estudam a morte súbita cardíaca (MSC) e o infarto agudo do miocárdio (IAM) em Israel e outras partes do mundo. Diz que “muitos dos artigos recentes sobre este assunto concluíram que geralmente se observa uma recrudescência de MSC, IAM e outras condições cardiovasculares com tempo de temperaturas baixas no inverno”.
Behar cita o israelita Green 1994, que revelou que entre 1976 e 1985 “a mortalidade por doenças cardiovasculares foi maior em 50% a meio do inverno que no meio do verão, quer para homens quer para mulheres, em diferentes grupos de idades”. Muito do trabalho de Green foi feito no deserto do Negev.
Faz notar que estes estudos são favoráveis para as pessoas que vivem em países quentes, bem como para todos aqueles “suficientemente afortunados por estar a experimentar aquecimento global”.

6. O estudo de Kloner (1999), feito na Califórnia, procurou variações na mortalidade cardíaca em 222.265 certidões de óbito no county de Los Angeles, entre 1985 e 1996. Concluiu-se que as taxas de mortalidade em dezembro e janeiro eram 33% superiores às e junho a setembro.

7. O estudo de Enquselassie (1993), em Hunter, New South Wales, na Austrália, conlcui que os infartos do miocárdio, fatais ou não, são 20-40% mais comuns no inverno e primavera que nas outras estações. Quanto a efeitos das temperaturas dia a dia, as rácios de mortalidade eram significantemente maiores em dias de temperaturas baixas, alturas em que as mortes eram 40% superiores aos dias restantes.

8. O estudo de Braga (2002) envolveu regiões frias e quentes dos Estados Unidos. Procuraram-se efeitos imediatos e com intervalo de tempo. Encontrou-se que nas cidades das regiões mais quentes nem as temperaturas altas nem as baixas influenciavam a mortalidade cardiovascular. Nas frias, pelo contrário, quer os aumentos quer as descidas de temperatura produziam aumento de mortes cardiovasculares, sendo que o efeito das temperaturas baixas se faz sentir por dias seguidos, enquanto que o das temperaturas altas apenas se faz sentir no próprio dia ou no seguinte. O efeito das temperaturas mais altas é cinco vezes menor que o das baixas, e depois das mortes iniciais, se as temperaturas altas persistem, não se verificam mais mortes, contrariamente ao que se passa com as baixas de temperatura.

9. Em S. Paulo, Gouveia (2003) encontrou, numa população entre os 15 e os 64 anos, um aumento de mortalidade de 2,6% por cada grau abaixo dos 20 ºC, sem nenhuma efeito de aumento de mortalidade pela subida de temperatura acima desse valor. No entanto, acima dos 65 anos, cada grau acima dos 20 ºC aumenta a mortalidade em 2%, e cada grau abaixo produz um aumento de 6,3% de mortalidade, ou seja, três vezes mais.

10. McGregor (2004) procurou dados semelhantes, para 1964-1999, em cinco counties ingleses. Encontrou que os ciclos anuais de temperatura e mortalidade são inversos, ou seja, que a baixa temperatura corresponde alta mortalidade. Usando, aparentemente, análise de Fourier, conclui que a primeira harmónica explica pelo menos 85% das alterações de mortalidade quer climaticamente quer numa escala anual (p < 0,01).
Também encontram que anos com picos de mortalidade exagerados também têm grande variação sazonal de temperatura, e que a altura do máximo de mortalidade está associado à altura com as temperaturas mais baixas. Propõem um mecanismo para o efeito (Lloyd 1991, Morgan 1997) através de vasoconstrição, hiperviscosidade sanguínea e hipertensão.

11. Chang (2004) analisou dados de hospitalização por trombose e infarto em mulheres dos 15 aos 49, em 17 países de vários continentes, segundo dados fornecidos pela OMS. A hospitalização por esses motivos, mas especialmente por infarto, era maior com temperaturas ambientes mais baixas. Em média, uma redução de 5 ºC associa-se a um aumento de 7% de hospitalizações por trombose e 12% por infarto. Citam vários outros estudos que estão em concordância. Notam ainda que estes efeitos da temperatura se podem estender durante um mês. (Noto eu que num mês também se passa muita coisa).

12. Bartzokas (2004) examinou a relação entre admissões hospitalares por motivos cardiovasculares ou respiratórios num hospital principal de Atenas e parâmetros meteorológicos num período de oito anos. Acharam que as temperaturas baixas foram responsáveis por muitas admissões, e, especificamente, que os aumentos de temperatura em relação a temperaturas baixas reduziam o número de admissões, excepto nas temperaturas muito elevadas, em que houve um discreto aumento de admissões.

13. No Japão, Nakaji (2004) avaliou tendências sazonais de mortalidade por diversas doenças em estatísticas de 1970 a 1999 frente à temperatura média mensal. Nos meses frios encontraram um máximo de mortalidade devido a muitas doenças infeciosas e parasitárias, nomeadamente tuberculose, pneumonia, gripe, diabetes, doenças digestivas, cerebrovasculares e cardiovasculares.
Nesta duas últimas categorias o aumento de mortalidade em janeiro era 1,5 a 2 vezes maior que em agosto e setembro.
Concluem que se deve reduzir a exposição a temperaturas baixas, que é o que fará o aquecimento global, e especialmente nas estações frias.

14. Em S. Paulo, Sharovsky (2004) estudou relações entre temperaturas, indicadores de poluição atmosférica e mortalidade diária por infarto. Encontraram uma associação significativa (p < 0,001) entre temperatura e morte por infarto, com a mortalidade mais baixa nas temperaturas entre 21,6 e 22,6 ºC. Na prática, os dados encontraram pouca variação entre os 18 e os 25 ºC, a temperatura máxima típica de S. Paulo.
As descidas de temperatura abaixo de 18 ºC produziam uma mortalidade 35% maior que a mortalidade mínima, observada nos 21,6-22,6 ºC.
Referem vários outros estudo que apoiam a maior mortalidade associada ao abaixamento de temperatura, e notam que o aquecimento global do século passado, aumentando as temperaturas mínimas, terá prevenido a morte de muitas pessoas no mundo inteiro.

15. Kovats (2004) analisa as admissões hospitalares e mortes em Londres e arredores nos anos 90. de 1994 a 1996, as mortes cardiovasculares foram cerca de 50% mais na altura mais fria do inverno que na altura mais quente do verão. Uma onda de calor que decorreu de 29 de julho a 3 de agosto de 1995 não teve qualquer impacto discernível na mortalidade.

16. Keatinge (2004) publicou um artigo de revisão mencionado claramente que “as mortes devidas ao frio são de longe mais que as devidas ao calor nos Estados Unidos, Europa e quase todos os países fora dos trópicos, e quase todas devidas a doenças comuns exacerbadas pelo frio”:
Encontram que as tromboses coronárias e cerebrais constituem cera de metade das mortes atribuíveis ao frio, e as doenças respiratórias cerca de metade do restante. Propõem um mecanismo relacionado com a viscosidade do sangue, tal como outros fazem.
Atribuem o aumento das doenças respiratórias a ajuntamentos em lugares mal ventilados, bem como ao efeito respiratório do ar frio, que estimula a tosse e a secreção nasal, facilitando o espalhar de bactérias e vírus, e eventualmente permitindo uma superinfeção secundária. Notam ainda que o frio reduz a resposta imunitária.
Notam ainda que as vagas de frio estão muito associadas a aumentos de mortalidade que continuam por muitos dias, mas que os aumentos de mortalidade devida ao calor são seguidos por períodos de mortalidade reduzida, pois os que morrem numa vaga de calor são os que já estão gravemente doentes.
Concluem que o efeito do aquecimento global pode ser tomado como benéfico. Como exemplo, notam que o aumento de temperatura de 2 ºC que se espera ocorrer nos próximos 50 anos irá aumentar as mortes pelo calor, nos UK, em 2.000, mas reduzir as mortes pelo frio em 20.000, e que, se as pessoas se protegerem adequadamente contra o frio, a mortalidade em geral será reduzida.

17. McGregor (2005) procurou relações entre a mortalidade por infarto e a Oscilação do Atlântico Norte (NAO) em três counties ingleses, centrando-se nos invernos de 1974-75 a 1998-99. Encontrou que as mortalidades abaixo da média, quer mensais quer de todo o inverno, estavam associadas a valores fortemente positivos da NAO, que produzem em geral ar quente e húmido, e que no outro extremo se encontravam os valores negativos da NAO, que se associam a temperaturas anormalmente baixas, sendo que as mortes por gripe ajudam a aumentar a mortalidade.

18. Carder (2005) usou modelos de regressão generalizada de Poisson para estudar a relação entre a temperatura exterior e mortes não violentas em três grandes cidades escocesas. Observou um aumento de mortalidade com as descidas de temperatura, mais pronunciado com temperaturas mais baixas que mais altas, e nenhuma indicação de aumento com temperaturas altas. Esta relação é mais forte nos mais idosos, e o efeito persiste por mais de duas semanas.
Abaixo dos 11 ºC, cada descida de 1 ºC da temperatura média diária produz um aumento de 3,4% de mortalidade durante os trinta dias seguintes. Concluem que, em qualquer altura do ano, uma descida de temperatura aumenta a mortalidade cardiovascular, sem terem encontrado aumentos de mortalidade associados a ondas de calor.

19. Cagle (2005) usaram a mesma metodologia estatística em King County (US) para o período de 1980-2000, para doentes fora do hospital, com mais de 54 anos, e dados meteorológicos do NCDC. Encontraram uma média de 2,86 mortes cardíacas por dia para todos os dias em que a máxima esteve entre os 5 e os 30 ºC. Quando esta desce abaixo dos 5 ºC, as mortes sobem 15% para uma média de 3,30/dia, e quando sobe acima dos 30 ºC desce para 2,78 mortes por dia. A associação entre mortes cardíacas e temperatura continua significativa mesmo com um atraso de cinco dias. Mencionam vários mecanismos que explicariam o aumento de mortes pelo frio.

20 .Tam (2009) usou dados de mortalidade em Honk-Kong de 1997 a 2002 para examinar a relação entre a diferença de temperaturas diárias e a mortalidade cardiovascular em idosos (65 ou mais anos). Encontraram um aumento de mortalidade de 1,7% por cada aumento de 1º C da temperatura diferencial, com um espaço de 1 a 3 dias. Nota-se que a redução da temperatura diferencial tem ocorrido nas últimas décadas (Easterling 1997).

Referências feitas neste post:
Keatinge 1984 - Keatinge, W.R., Coleshaw, S.R., Cotter, F., Mattock, M., Murphy, M. and Chelliah, R. 1984. Increases in platelet and red cell counts, blood viscosity, and arterial pressure during mild surface cooling: factors in mortality from coronary and cerebral thrombosis in winter. British Medical Journal (Clinical Research Education) 289: 1405-1408.
Green 1994 - Green, M.S., Harari, G., Kristal-Boneh, E. 1994. Excess winter mortality from ischaemic heart disease and stroke during colder and warmer years in Israel. European Journal of Public Health 4: 3-11.
Loyd 1991 - Lloyd, E.L. 1991. The role of cold in ischaemic heart disease: a review. Public Health 105: 205-215.
Morgan 1997 - Morgan, M.D. and Moran, J.M. 1997. Weather and People. Prentice Hall, Englewood Cliffs, NJ, USA.
Easterling 1997 - Easterling, D.R., Horton, B., Jones, P.D., Peterson, T.C., Karl, T.R., Parker, D.E., Salinger, M.J., Razuvayev, V., Plummer, N., Jamason, P. and Folland, C.K. 1997. Maximum and minimum temperature trends for the globe. Science 277: 364-367.

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