sexta-feira, 14 de maio de 2010

A população de signatários da carta aberta publicada na Science

(Atualizado)
Os meus amáveis leitores estiveram para aqui a aturar a minha ausência enquanto eu andava a escarafunchar as qualificações académicas dos signatários da carta que apareceu na Science, com a tal imagem “photoshopada” do urso branco. Os resultados não trazem muitas surpresas, e apresento-os resumidamente aqui. O documento in extenso, em Inglês, está aqui.
A carta já foi completamente rebatida em vários sítios, porque não diz mais nada que não seja publicidade gasta do movimento aquecista. Na verdade, “os rebatimentos” acabam por limitar-se aos cinco pontos destacados, porque tudo aquilo é de uma cansativa vacuidade intelectual.
A razão que me levou a analisar as qualificações de tão nobres membros da US NAS – o organismo que tira as dúvidas científicas à administração dos Estados Unidos – é o cansaço de ouvir os aquecistas usar um argumento de incompetência, como seja, “Ah, mas esse não é um cientista do clima, podemos esquecer o que ele diz.”
Obviamente, isto não se aguenta. É evidente que para quem não lide com clima, ou mesmo com tempo, as particularidades técnicas dessa área não podem ser abordadas com confiança, sem dúvida. Mas os erros da conjectura do Aquecimento Global Antropogénico Catastrófico estão a níveis absolutamente fundamentais, básicos, como seja a metodologia científica no geral. Aí, qualquer pessoa que tenha feito investigação, ou de algum modo se envolva em ciência, é capaz de encontrar erros que mandam a conjectura do AGAC irremediavelmente para o lixo.
Por exemplo, para desmanchar os erros e aldrabices estatísticas do stick de hóquei do Michael Mann, o que é preciso é saber estatística, e não paleoclimatologia. Para se saber que é desonesto escolher certos dados e não outros basta ter uma banca de frutas, não é preciso um doutoramento em astrofísica. Esta parte, os aquecistas não percebem.
Adotando, então, um ponto de vista que acho errado à partida, quis ver como é que o argumento da incompetência, usado pelos aquecistas, se aplica aos signatários da carta aberta.
A carta encontra-se não só na Science, mas também no Guardian, aqui com endereços para as páginas institucionais dos signatários, o que foi muito útil.
A partir do Guardian, visitei todos os 255 links e construí uma base de texto com as descrições dos signatários. Escolhi uma coleção de palavras chave ligada à “ciência climática”, e procurei-as nessa base de texto. Para cada signatário, anotei a respetiva área de formação ou atividade, o número de vezes que as palavras chave ocorriam no texto que lhe dizia respeito, e comecei a partir daí.
Dos 255, 187 (73,3%) não tinham nenhuma ocorrência de palavras-chave relacionadas com “ciência climática”. Se fôssemos aplicar o argumento dos aquecistas, esses senhores e senhoras não sabem o que assinaram. Abaixo, o número de signatários, segundo o número de palavras chave encontradas:



Procurei outras coisas interessantes. Para cada organismo, qual era o número de acertos por signatário? Ou seja, uma medida de quais as instituições com signatários mais qualificados, um valor de 1 significando que cada signatário tinha uma palavra chave:



As instituições com 1 ou menos não foram apresentadas.
Agora, dentre as instituições que mais signatários tiveram, qual é o valor médio de acertos de palavras chave por signatário; ou, por outras palavras, das que tiveram mais gente a assinar, quais são as instituições que lá têm signatários que entendem minimamente de ciência climática, e quais não têm:



Notem que apenas três têm pelo menos um acerto por signatário, quatro têm menos de 0,5, e que duas têm zero. Estas foram as instituições em que houve mais gente a assinar.
Agora, vejamos como se distribuem eles por áreas de conhecimento:



O gráfico está cortado, por razões de qualidade gráfica que não consegui resolver, mas está inteiro no meu rascunho. E o que vemos é giríssimo: as sete áreas de conhecimento com mais signatários não tem nada a ver com clima: bioquímica, biologia, antropologia, ecologia, ciências do sistema nervoso, genética e ciências políticas.
Só depois aparecem a geologia e a geofísica, que aceitam possam eventualmente ter a ver com clima. Depois, os disparates continuam por aí abaixo. Para exemplo, só os que têm mais piada: sociologia, genética evolucionária, arqueologia, cirurgia, epidemiologia, paleoantropologia, linguística. Eh...
Se agora pegarmos neles e os juntarmos segundo grandes grupos de conhecimento, temos isto:


(Gráfico atualizado: o inicial era uma versão antiga e continha erros).
Ou seja, na secção que interessa ao clima, há só 49 signatários (41 para as ciências humanas...), isso independentemente de quantos acertos de palavras chave tiveram, ou seja, se realmente trabalham em clima ou não. 49 em 255 dá 19,2%.
E vejam que fui generoso, porque decidi sempre a favor dos supostos “cientistas climáticos”.
E, claro, há que lembrar que 87,9% dos membros da NAS não assinaram a carta. Talvez estejam de férias em parte incerta. E, até estes 255 chegarem aos 9.029 doutorados da Oregon Petition, ainda lhes faltam... olhem, façam as contas.

É evidente que a carta, pela sua absoluta inanidade e amência, e pelo facto de ser assinada na sua maioria por pessoas incompetentes na área, é um documento político. É a expressão de um certo número de pessoas, que aliás declaram que não assinam a carta enquanto membros da NAS (mas são). Têm todo o direito a fazê-lo, mas não tem a ver com ciência, mas com política. Abaixo-assinados é política. Neste momento, está a decorrer uma audição do Congresso sobre a ciência climática, e a continuar a preparar-se uma lei de cap and trade. É, enfim, um momento oportuno.

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